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"Disseram-me: verás quando tiveres cinqüenta anos. Tenho cinqüenta anos: não vi nada". Erik Satie
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27.11.05
A nota do jabá deu filhote
Nelson Sargento se manifestou, num e-mail efusivo. Idem, o Zuza Homem de Mello, e muita gente boa. Agora, mais um capítulo: a Warner já se pronunciou sobre o jabá, fez seu mea culpa e jurou que não paga mais, nem oferece favores, nunca mais, para fomentar a execução dos seus artistas nos meios de comunicação. A ordem veio da Warner-mãe, a matriz. Estamos de camarote esperando para ver o futuro disso. Já pensou se todas as cinco grandes gravadoras, as tais majors, resolvessem gritar: "Não pagamos mais jabá, os canais de TV e as emissoras de rádio são concessões públicas!" Teremos artistas de qualidade, de vários segmentos, e o público vai decidir quem quer escutar no rádio, sem massificação emburrecedora! Os diretores de gravadora vão ter que entender mais de música que de marketing, vão ter que ouvir música e as fitas demo que recebem, vão contratar artistas novos e os programadores de rádio deixarão de ser meros intermediários. Vão ter que conhecer o que o mercado oferece, como já foi um dia...
Poderíamos passar o fim de ano ouvindo Imagine, a mesmice de sempre, mas desta vez com esperança de verdade no coração. E sonhos de um ano novo cheio de artistas diferentes, de vários segmentos, gravando seus discos e fazendo carreira, sem precisar vender milhões de cópias, com técnicos empregados, estúdios a todo vapor, casas de show de todos os portes, compositores fazendo carreira e escoando sua produção, selos sobrevivendo, iniciativas culturais independentes dando flores e frutos. Isso sim é que seria um milagre de Natal. É pedir muito, sim, mas já estamos começando a receber respostas...
publicada ontem, dia 26/11/2005, no JB. O texto é meu.
1:58 AM Comments:
23.11.05
Sobre advogados e psicopatas e Ilhas Seychelles
Quantos filmes terão sido feitos com o tema advogado-apaixonado-que-cai-no-conto-da-mulher-gostosa-que-apanha-do-marido-e-acaba-matando-pra-proteger-a-amada-que-queria-mesmo-o-dinheiro-do-seguro? Um milhão, né? O cara vai pra cadeia, rola aquele drama de amor e traição. E a mulher, nunca deixam ela ser uma filha-da-puta completa, porque quando ela está nas Ilhas Seychelles, cercada de coqueiros, homens fortes de torso nu e drinques ornados com guarda-chuvinhas de papel colorido, ela pensa nele, nas noites em que os dois rolaram no tapete daquela cabana nas montanhas nevadas, em frente à lareira. Ou do dia em que correram na areia em frente à casa de praia com varandão envidraçado para o horizonte. No fundo ela também o amou, mas well, a grana, né? E o cara era mó mané...
Mas no filme que vi ontem, exageraram. A moça em questão, a sedutora, era a Marlee Martin, a atriz muda que deixou o William Hurt na sarjeta, lembram? Ele era bunitinhu, de olho azul, cabelinho meticulosamente displicente, com gel. Ela era surda-muda e lésbica desde criancinha, porque lá pelas tantas o advogado apaixonado recebe, em envelope com remetente anônimo, um recorte de jornal com foto da amada ao lado de sua própria sócia no pequeno escritório de advocacia. As duas de cheerleaders na escola. Gente, vamo combiná que esse povo é suuuuuuuper criativo, né?
Esse roteiro deve ser trabalhinho de faculdade de cinema em L.A., junto com aquele outro, em que o cara era um fofo total até casar, momento em que se transforma num psicopata torturador. Maior a psicopatia quando a moça é viuva com filhos, porque aí ele vira, tb, padrasto.
Seychelles
3:08 PM Comments:
18.11.05
Coisa linda
O Rio de Janeiro é foda! O meu chuveiro fica em frente à porta do banheiro, que por sua vez fica em frente à porta do meu quarto, que também fica alinhada com o janelão do quarto, que dá pra uma amendoeira frondosa e cheia de bem-te-vis e sabiás e pardaizinhos e rolinhas e morcegos. Mó galera maneira. Os pardais tomam banho na bandeja do meu ar condicionado, que acumulou água durante a noite. Os morcegos entram aqui pra dar um oi e largar umas sementes...
Bom, mas falando em banho. Eu tava tomando banho, feliz da vida, abri a porta do box pra pegar uma parada do lado de fora e vi aquele verdão na minha frente. Pensei: ah, vou deixar a porta do box aberta pra maresia que tá entrando, pro céu azul, pras nunvens cor de rosa que se anunciam no horizonte antes do por-do-sol. De repente vejo uma família inteira de micos pulando de galho em galho, aquela alegria!
po, aí já é demais... sem comentários...
lua de mel no copacabana palace
7:35 PM Comments:
14.11.05
Adoro o Claudio Zoli, adoro!
10:33 PM Comments:
Jabá mensalão é
FICA COMBINADO que os artistas que pagam jabá não podem mais ir a público chamar político de corrupto. Neste momento em que se fala tanto em mensalão, é bom lembrar que o jabá é o mensalão das rádios, das TVs, dos programadores de grandes eventos públicos... O negócio funciona exatamente da mesma forma e pode ser caracterizado como crime de corrupção. Pagar por fora em troca de privilégios e favores é crime. Isso é o que acontece hoje em quase todas as rádios e redes de TV do país, com exceção da rede pública, que cumpre à risca o papel de abrir as portas para todos... No momento em que um artista grande paga, mesmo através da sua gravadora, mesmo não sendo em espécie e mesmo sem saber exatamente quanto está pagando, ele está acabando com a carreira de centenas de artistas independentes, de técnicos de estúdios pequenos, de compositores, de músicos, de artistas gráficos... É fácil para as grandes gravadoras culparem a pirataria pela falência do mercado musical no Brasil. Mas ninguém fala sobre o jabá, monstro criado em casa, pelas próprias gravadoras. No Brasil, os selos afundaram. Iniciativas de importância fundamental como Velas , Kuarup , Som da Gente e tantos outros foram soterrados pelas leis ilegais do mercado. A Dubas, selo de Ronaldo Bastos, a Biscoito Fino, a Rob Digital, a Trama. Todos são corajosos guerreiros que trabalham para colocar música no mercado e deixar a roda girar, a fila andar e os artistas escoarem sua criação... Artista que paga jabá não fala mal de patrão! Ou então pode, corajosamente, ir à TV dizer: "Vou abrir meu selo independente porque não concordo com os duzentos picaretas ou com os não sei quantos políticos isso-e-aquilo". Pagar jabá e fazer música de protesto é falta de vergonha na cara...
Publicado hoje no Jornal do Brasil. O texto é de minha própria autonomia.
10:28 PM Comments:
8.11.05
Relatório Crowley
Recebi uma cópia do relatório crowley, que é um listão dos que mais pagam jabá, ops, dos que ficam entre os artistas mais tocados em todo território nacional. Tocar expressivamente no rádio é inacessível ao artista comum, por melhor que seja, por mais bem relacionado que seja, se ele não tiver dinheiro. É o esquema, é assim, dizem. E pronto. Se vc tem grana e tem sorte, pode tocar, se tem grana e nao tem sorte, nem assim. Sem grana, nem pensar. Normalmente, quem paga o jabá é a gravadora, nem sempre em espécie. Muitas vezes em trocas de favores. Se são sexuais, nao sei. ;) Mas acho que não, para infelicidade dos que fantasiam o teste do sofá.
Vamos por partes. Quem faz a contagem? O ECAD? Hahahaahah. Para se ter uma idéia, o registro de composições ainda nao foi informatizado no Rio de Janeiro, o que significa que eu posso pegar uma música sua, escrever no papelzinho e ir registrar em SP sem ninguém saber. Imagina o fiscal do ECAD, de ouvido grudado no radinho, desenhando quadradinhos no papel ao lado de cada título de cada música, para contabilizar a execução das músicas do Oiapoque ao Chuí.. hahahaahah, só rindo. Será que essa lista é manipulada? Será? Qtas vezes a gente ouve falar em milhoes de copias vendidas, qdo na verdade sao milhoes de copias prensadas, encomendadas e encalhadas?
Nao me esqueço de um episódio que aconteceu comigo, priscas eras. O Bolinha, aquele das camisas floridas, ainda existia, e o jabá não estava tão institucionalizado. Eu tava em SP lançando um disco, fui na Band fazer um programa de entrevistas, passei no escritório do Bolinha pra fazer divulgação, aproveitar a viagem, eu ainda nao sabia como eram as coisas. O cara que me atendeu nem olhou pra mim, só disse assim: "350 dólares. Rede Nacional, filha, sabe quantas pessoas vao te ver?" Eu perguntei: "VC vai me pagar isso pra eu vir ao seu programa?" E a gente ligava o Bolinha e só via pé rapado, artista de enésima catiguria, tudo pagando, tudo dando as calças pra aparecer na TV, em busca do tal lugar ao sol. Aprendi...
Mas voltando... o primeiro lugar do Crowley, certamente, é o que mais paga jabá pra chegar a esse volume de execuçào em rádio e TV. De acordo com a lista, o top é o Orlando Morais (!). Pelo que vi no seu press kit, ele nao tem nem gravadora, o selo do CD demo diz Blessed Music, whatever it is.... Antigamente ele era da Som Livre, gravadora sem artistas além da Xuxa. Gravadora de coletâneas e extorsão de artistas. Uma vez gravei uma faixa numa coletanea de dance music da Som Livre, em inglês, com pseudonimo. Até hoje devo dinheiro pra eles, pq eles dizem que me pagaram por uma tiragem que encalhou. Taí a realidade.
O release do CD diz: "Em Tempo Bom Orlando Morais usa e abusa de uma característica bem sua: a liberdade". (?) Significa que ele gravou uma faixa com o pessoal do Babado Novo pra "levantar a galera nos seus shows". Babado Novo é aquele grupo que assassina músicas comuns em ritmo baiano.
Nao sei se o disco é bom ou ruim. Nao faz a menor diferença. E pra vcs nao dizerem que é rabujice minha, que é implicancia, dou aqui a relaçao dos top 10 do jabá: Jay vaquer, kid abelha, alcione, jota quest, lulu santos, paralamas, jorge vercilo e los hermanos e zeca pagodinho. Só mega-gravadora...
Todo respeito ao artista, a todos esses dos top ten, inclusive ao Orlando Morais, cujas canções aprecio. Mas não se pode continuar enganando a todos o tempo todo...
mim quer tocar, mim gosta ganhar dinheiro
1:55 AM Comments:
7.11.05
Universo paralelo
Estranho quando a gente atribui um momento da vida a um lugar. Ontem estive no Posto 6, Copacabana, cenário de uma época da minha história. Nunca antes eu tinha andado por lá, e nunca andei depois. Passeando pelas ruas, pra lá e pra cá, entre bancos, pagamentos, acertos do plano de saúde e outros quetais da vida real, eu me sentia como se tivesse aberto o portal do passado.
Senti como se as cenas ficassem impregnadas nos lugares, as palavras congeladas no ar, os gestos presos em uma dimensão paralela que a gente acessa com o poder da lembrança. Para mim, naquele ponto de ônibus, estarei eternamente dizendo: "Mas como é que vc pode fazer isso comigo?" Ele calado, com a sombra do remorso atravessando os olhos...
Em um balcão de boteco, o amigo estará sempre acotovelado, contando a noitada que acabou em piada. O amigo morreu, mas a história nao morre. E ele continua lá, tomando aquela cerveja, embriagado e absolutamente gentil, até passar do ponto, ficar agressivo e me chamar de patricinha louca e ir embora pra casa sem pagar a conta. Mas patricinha? Eeeeeuuuuu? Nunca me conformei com isso, logo eu, patricinha...
Incrível sentir que as coisas e os lugares têm uma memória, como se tivessem um corpo astral em que se imprime todo o registro de tudo do mundo.
Angústia... Quem passa pelo tempo somos nós...
Posto 6, 1906. Rua Francisco Otaviano vendo-se ao fundo Ipanema, Leblon e o Morro Dois Irmãos. Na esquina encontramos hoje o Hotel Sofitel. Nesta época havia ali um restaurante de peixadas, o Mère Louise e um conhecido rendez-vouz. Autor desconhecido.
Imagina quantas histórias empilhadas em Copacabana? É isso que faz dos lugares o que eles são?
5:00 AM Comments:
3.11.05
Ácida
E, pra piorar a situation, a tal Eleanor Rigby do post aí de baixo cismou de ficar minha amiga, aliás, de colar comigo. Tá encantada com a quantidade de amigos solteiros que tenho. Acha que encontrou um foco maravilhoso de possíveis partidos. Descobriu meu bar, e sempre vai lá me procurar. Aparece e senta na minha mesa. Eu sou do tipo educada, nao sei dizer que nao.
Sempre estou com homens, amantes, poetas, colegas de copo e de cruz, como dizia o Chico. E Eleanor quer namorar meus amigos de esbórnia, e o pior de tudo: me liga pra combinar de sair e pra fofocar da noite anterior. Coisas que não faço de jeito nenhum, a não ser com pessoas que amo e q tenham muito a ver com isso tudo, poucas, muito poucas. Senao prefiro ir sozinha e encontrar o povo de rua, mesmo. Eu sou mulher, heterossexual, mas não suporto essa coisa de mulher que anda em bandos. Nada melhor pra afugentar a clientela e espantar a freguesia. Namorado se arruma na aula de dança de salão. Ou no cursinho de sommelier. Ou no Yôga. Meus amigos de esbórnia não se misturam em nada disso, respeito é bom e eu gosto.
Lição #1 sobre ser amiga de uma canceriana: Grudou + insistiu = perdeu, play.
Como dizia Greta Garbo:
Ou como disse Lenine: Hoje eu quero sair só...
9:27 AM Comments:
Frescuras
juro que eu não entendo gente que pega chuva e fica resfriada. Não tomam banho de chuveiro?
juro que eu não entendo gente que toma gelado e fica com dor de garganta. Sorvete nao rola nunca?
juro que eu não entendo esse povo que entra no ar condicionado e sai gripado. Alto verão a pessoa morre de calor ou de gripe?
nem vou falar nas frescuras tipicamente femininas, tipo nao molhar o cabelo na praia pra nao desmanchar o penteado...
e tb nao vou falar das frescuras tipicamente masculinas. Homem com fome, sono, frio, resfriado, dor de cabeça ou qq coisinha, vira bebê de um ano de idade...
Acho que vou morar numa caverna: nunca estive tão sociopata...
eu sou a da direita
8:41 AM Comments:
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